Yoga antídoto para Solidão: Lhe Tenho Amor
- Rodrigo Souza
- Jul 20
- 2 min read
Updated: Jul 21
Viver com deficiência pode ser, muitas vezes, uma experiência solitária. Não apenas pela condição em si, mas pela forma como a sociedade organiza seus espaços e relações. O cotidiano impõe uma série de barreiras físicas, comunicacionais e, principalmente, atitudinais; que tornam o simples ato de existir e participar algo excludente. Poucos espaços são pensados para acolher a diversidade de corpos e modos de existir. E quando não se pode estar, participar, conviver, a solidão se instala.
Essa exclusão não acontece apenas em ambientes formais. Ela também se expressa nos pequenos convites que não são feitos, nas práticas que não se adaptam, nos olhares que ignoram. Isso é capacitismo. Um sistema que naturaliza a ideia de que corpos com deficiência são “menos capazes”, que não pertencem, que não podem. Muitas vezes o capacitismo é silencioso: aparece quando um professor de yoga nunca cogitou receber uma pessoa usuária de cadeira de rodas em sua aula. Ou quando alguém afirma que “yoga é para todos” sem, de fato, ter se preparado para acolher todos os corpos.
Essa ausência de acessibilidade é mais do que a falta de rampas ou legendas. É a ausência de escuta, de consideração, de ajuste real. É o não-lugar. E viver nesse não-lugar gera impacto. As pessoas com deficiência enfrentam, além das barreiras práticas, um desgaste emocional imenso, um sentimento de invisibilidade que compromete até mesmo o desejo de estar. E se a gente olhasse com mais atenção para isso?
O yoga pode, e deve, ser um espaço diferente. Porque o yoga é, antes de tudo, um convite à presença. E presença não se mede por flexibilidade, nem por alinhamento técnico. Ela nasce do corpo possível, do fôlego disponível, da escuta presente. Quando uma aula de yoga se adapta, quando respeita os tempos e movimentos singulares, ela cria um ambiente onde o outro pode ser, sentir e pertencer.
Essa prática, quando realmente acessível, se transforma em lugar de encontro. De troca. De comunhão. Não apenas entre as pessoas, mas entre cada praticante e sua própria história corporal. E isso é precioso, especialmente para quem tantas vezes foi deixado à margem.
Não podemos esquecer que a deficiência nunca vem sozinha. Ela se cruza com classe, raça, gênero e orientação sexual. Uma mulher negra com deficiência, por exemplo, pode vivenciar múltiplas camadas de exclusão. Por isso é tão importante considerar a interseccionalidade. Para que nossas práticas não sejam apenas acessíveis, mas também verdadeiramente inclusivas.
As aulas de yoga adaptado têm esse potencial de criar espaços de convivência, acolhimento e escuta. Um lugar onde cada pessoa se sente vista, respeitada, incluída e amada. Onde pequenas vitórias são celebradas com afeto. Onde o cuidado se torna coletivo, e o pertencimento, possível.
Quando a prática deixa de ser sobre performance e passa a ser sobre presença e conexão, ela se torna um antídoto contra a solidão. E mais do que isso: ela se transforma numa rede viva de apoio e fortalecimento emocional. O remédio? Amor. É assim que o yoga pode, de fato, cumprir sua promessa de união, não apenas com o nosso próprio ser, mas com o mundo ao redor. Um mundo mais justo, mais humano e mais acessível.
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